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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Riqueza e Felicidade

"Aquele que mais goza da riqueza é o que menos necessita dela"
"Queres ser rico? Pois não te preocupes em aumentar os teus bens, mas sim 
em diminuir a tua cobiça."
"A riqueza que é conforme à Natureza tem limites e é fácil de encontrar, mas a imaginada pelas opiniões vãs não têm limites e é difícil de adquirir."
"Os insensatos nunca estão satisfeitos com o que têm, mas afligem-se com o que não têm. Eles ficam inchados de orgulho na prosperidade, mas abatidos na adversidade."
"A quem não basta pouco, nada basta."
Frases atribuídas a Epicuro.



Epicuro pregava e vivia um estilo de vida simples, buscando garantir pelo trabalho o que fosse necessário e evitando se envolver com causas potenciais de perturbação. Ele adquiriu um Jardim em Atenas, e dentro desse Jardim, junto com seus discípulos, ele cultivava alimentos para a sua subsistência e da sua Escola. Ele não ambicionava grandes riquezas e não tentou estabelecer sua Escola com o apoio de pessoas poderosas. Pelo contrário, ele evitava o envolvimento com o poder e a política.

Epicuro via os bens materiais como causas importantes de perturbação e infelicidade para o homem. Era considerado justo que o ser humano lutasse e trabalhasse para assegurar sua sobrevivência e satisfazer suas necessidades básicas (comida, abrigo, companhia, remédio para o corpo e filosofia para a alma) e da forma mais livre possível. Porém, ele considerava contraprodutivo o trabalho voltado para a aquisição de bens supérfluos: comidas refinadas, roupas caras, jóias, muitos servos e escravos (ele tinha poucos, e os tratava bem, até lhes ensinava), muitas riquezas acumuladas, além de prestígio, fama, poder, sucesso etc. Os problemas de tentar alcançar essas coisas são esses: elas não são necessárias; elas motivam a competição e o conflito; os indivíduos põem a si mesmo e aos bens que já possui em risco para obtê-las; e, uma vez obtido, o indivíduo precisa se esforçar para que o bem conquistado não se perca ou lhe seja tomado. Tudo isso gera ansiedade, insegurança e sofrimento ao indivíduo, dificultando sua busca pela felicidade.

Isso quer dizer que Epicuro era contra a riqueza? Não exatamente. Epicuro era contra o amor pela riqueza, um amor que motiva o homem a causar mal a si mesmo e ao próximo. O modo de vida epicurista não exclui a possibilidade de o indivíduo ser trabalhador, produtivo e acumular riquezas. Isso na verdade é até bom, pois livrará a pessoa e seus entes queridos de muitas necessidades. Mas quando alguém tem consciência que não precisa acumular riquezas para ser feliz, ele não tem motivos para ser ganancioso, avarento nem para tentar enriquecer de modo desonesto ou às custas de outras pessoas.

Essas afirmações ficariam muito vagas se eu não apresentasse exemplos concretos. Como eu não sou rico (ainda), irei apresentar um exemplo de pessoa rica que conseguiu associar riqueza com felicidade: Sílvio Santos. Esse homem, filho de imigrantes nascido no Rio de Janeiro, conseguiu construir um império no setor de telecomunicações do Brasil, o que atualmente conhecemos como canal SBT, e é conhecido por distribuir muitos prêmios aos seus espectadores. Eis um vídeo dele, de 1988, no qual ele expõe o que parece ser sua filosofia de vida, ao mesmo tempo em manda um recado a um colega de profissão, Roberto Marinho:


Ele fala sobre os prós e os contras de se administrar uma família e uma empresa e sobre o que é necessário para o ser humano (emprego, casa, comida, médico, escola para os filhos). Também questiona a ambição e a cobiça perante à perspectiva de uma vida que inevitavelmente acaba. Esse vídeo foi gravado há quase 30 anos, mas tudo indica que Sílvio não mudou nesse aspecto e continua sendo uma pessoa digna e respeitável. A filosofia que ele expõe é um exemplo de sabedoria universal que transcende qualquer limite de dogmas, religiões ou convicções pessoais. É uma filosofia prática e ao mesmo tempo simples, como Epicuro procurava ensinar e seguir. E tanto as palavras de Sílvio, como suas atitudes nos mostram que a riqueza e a fama não são obstáculos para a felicidade humana nem para a construção de um ser humano preocupado com o bem-estar do seu próximo. Basta não se deixar dominar por isso e saber reconhecer o que verdadeiramente é importante.

Até breve.

Fonte: Entrevista com Epicuro, de Válter Borges

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O que é o Epicurismo?

O Epicurismo é um conjunto de ensinamento que foi elaborado por Epicuro de Samos, um filósofo grego que viveu no século IV a.C.. Tinha como objetivo promover a felicidade do ser humano, por meio da apreciação dos prazeres da vida, da prudência e da libertação do medo, da ansiedade e dos desejos inúteis.

Para Epicuro, todo prazer era bom e toda dor era ruim, porém nem todos os prazeres devem ser buscados, pois trazem consigo dores maiores, assim como nem todas as dores podem ser evitadas, pois trazem consigo prazeres maiores. Por meio da prudência, o ser humano seria capaz de trabalhar pelo que é bom e evitar o que é mau, evitando as causas de sofrimento e aumentando sua felicidade. Portanto o Epicurismo não prega uma busca inconsequente e desregrada do prazer. Esse é um erro comum ao se estudar a doutrina epicurista, e também é um argumento usado por seus adversários para atacá-lo.

Os sentidos seriam a chave para obter o conhecimento do mundo. Nossa mente pode elaborar teorias e deduções, mas são os sentidos e a experiência que permitem alcançar o verdadeiro conhecimento da realidade (Empirismo). Porém, os sentidos são limitados, de modo que causas sensíveis podem provocar efeitos insensíveis e vice-versa. Através do estudo sistemático da realidade material (o que atualmente chamamos de Ciência), é possível através do que é sensível conhecer aquilo que é insensível na Natureza.

Baseado em Demócrito, Epicuro defendeu o atomismo, teoria que defende que toda matéria do Universo é formado por átomos, e que todos os fenômenos observados eram resultados da movimentação desses átomos e das interações entre eles. Não havia uma explicação para a origem dos átomos, mas se afirmava que eles possuem uma grande variedade, que existem em números incontáveis e que seu surgimento remonta há épocas muitíssimo antigas. Embora não houvesse meios de provar tais teorias na época, elas se provariam corretas, embora de modo bem diferente que o previsto por esses filósofos. Mas Epicuro foi mais além, e atribuiu aos átomos todos os fenômenos da natureza, incluindo a consciência humana. A alma (psiquê) humana também seria formada por átomos, portanto não era incorruptível, mas estaria sujeita à mudança e à destruição. A alma seria um produto da atividade do corpo, sendo que a morte causaria a sua destruição. Portanto, Epicuro não acreditava em uma vida após a morte. Ele inclusive defendia que a crença na imortalidade da alma causava muitos males ao ser humano, que passaria a temer a morte e  os possíveis castigos que ela reservava. Abandonar o medo da morte, para Epicuro, era uma condição necessária para alcançar a felicidade.

Quanto aos deuses, Epicuro via os deuses adorados pelos gregos antigos como inexistentes, nascidos do medo, da ignorância e fonte de inúmeras superstições. Afirmou que existiam de fato deuses, mas que esses em nada se assemelham aos deuses dos mitos. Os deuses seriam seres que habitariam outros planos de existência, sendo constituídos de átomos, como qualquer coisa no Universo. Porém, esses átomos seriam de natureza e organização tal que permitiriam aos deuses viver uma vida longa, prazerosa e com poucos sofrimentos. Eles não estariam relacionados aos fenômenos naturais ou à criação do Universo, mas seriam apenas outra categoria de seres vivos que habita o Universo, como as plantas e os animais. E o fato de suas manifestações serem incomuns (para não dizer inexistentes) se deveria porque eles não tem interesse pelo ser humano (visto estarem em uma condição privilegiada de felicidade), serem incapazes de interagir com nosso plano de existência (pela distância ou devido sua constituição material singular), ou mesmo por desconhecerem a existência de nosso mundo e do ser humano. Assim, os deuses não precisariam ser temidos, visto que não podem nos fazer mal e nem teriam interesse nisso. Também não precisariam ser adorados, com rituais, sacrifícios e restrições inúteis impostas aos devotos. De nada adiantaria fazer-lhes pedidos, visto que não teriam como ouvir ou agir- principalmente se fossem pedidos que os devotos tivessem condições de realizar sem auxílio divino. Eles deveriam ser vistos como seres felizes e realizados, de modo a inspirar os seres humanos a tentar alcançar esse estado de felicidade que os deuses desfrutavam.

Epicuro viajou por vários lugares, até que se estabeleceu em Atenas com sua escola de seguidores. Eles construíram um jardim, onde se praticava uma agricultura de subsistência, de modo a conseguir satisfazer as necessidades daqueles que ali viviam. Seu jardim era um convite para deixar a vida agitada da sociedade, com toda a sua pompa, suas exigências, toda sua ansiedade e artificialidade, para viver de forma pacata, sem luxos e ambições, mais próximo da natureza, trabalhando apenas para garantir seu sustento, enquanto se ocupava com a filosofia e se cultivava a amizade com aqueles que ali viviam. Epicuro propunha aos seus seguidores um estilo de vida tranquilo e simples. Para quê se aborrecer com a cobiça, a vaidade, as disputas de poder, os modismos, a busca por status e reconhecimento, se o homem precisa de tão pouco para viver e ser feliz? E Epicuro não fazia distinção entre pessoas, aceitando em sua comunidade mulheres, escravos e estrangeiros. A busca por um estilo de vida livre e autossuficiente se mostrou muito valioso, quando um cerco à Atenas montado por Demétrio resultou em escassez de comida e trouxe fome à cidade. Mas Epicuro e seus discípulos conseguiram sobreviver ao cerco, "contando os feijões". A organização em jardins e comunidades rurais foi a "marca registrada" da escola epicurista.

O Epicurismo é uma doutrina filosófica que busca promover a felicidade humana de modo prático, tentando encontrar as causas do sofrimento do ser humano e procurando no próprio ser humano a solução dos seus problemas. Estudá-lo e mesmo praticar alguns de seus princípios pode ser a chave para promover uma vida mais tranquila e feliz. A depressão e a ansiedade são conhecidas como as grandes doenças do século XXI, então o estudo da felicidade é mais urgente do que nunca. E como o próprio Epicuro disse a Meneceu: "nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para cuidar do bem-estar da alma. O homem que diz que o tempo para este estudo ainda não chegou ou já passou é como o homem que diz que é demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade". Portanto, estudem.

Até breve.

http://filosofia-bis.blogspot.com.br/2012/02/o-jardim-de-epicuro-e-suas-nove.html

http://newepicurean.com/epicurus/gassendis-epicurus/gassendis-epicurus-part-1-life-of-epicurus/

http://criticanarede.com/meneceu.html